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Hiper-calvinismo: Uma Breve Definição

Tim Challies

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O termo “hiper-calvinista” é frequentemente utilizado como um termo pejorativo. Praticamente todo calvinista que adere firmemente às doutrinas da graça é suscetível a ser considerado um hiper-calvinista por pelo menos alguma pessoa. Para falar com franqueza, um hiper-calvinista pode ser qualquer calvinista para uma pessoa que não entende o calvinismo. Por isso hoje, muito brevemente, e porque o termo surgiu algumas vezes nas últimas semanas, quero estreitar a definição precisa um pouquinho mais. Primeiro vamos analisar alguns exemplos do que não constitui hiper-calvinismo. Depois vamos efetivamente definir o termo.

Embora a maioria dos calvinistas atenha-se aos cinco pontos do calvinismo como sumarizadas no acrônimo TULIP, há quem se refira a si mesmo como calvinista de seis ou sete pontos. Uma pessoa que é conhecida por identificar-se a si mesmo como um calvinista se sete pontos é John Piper. Ele fala isso meio na brincadeira, mas sua intenção é comunicar a verdade de que os cinco pontos do calvinismo não são exaustivos em sua consideração da soberana graça salvadora de Deus. O site Desiring God diz: "Piper não está tentando acrescentar mais dois pontos, mas está simplesmente chamando a atenção para a sua fé nos tradicionais cinco pontos (total depravação, eleição incondicional, limitada expiação, irresistível graça, e perseverança dos santos) de uma forma que também aponta para duas verdades 'Calvinistas' que advém deles: dupla predestinação e o melhor-de-todos-os-mundos-possíveis." Dupla predestinação é largamente considerada como o sexto ponto. É simplesmente o outro lado da predestinação: que da mesma forma como Deus soberanamente escolhe aqueles a quem salva, Ele também escolhe aqueles a quem não vai salvar. Alguns calvinistas rejeitam essa idéia, dizendo que Deus escolhe Seus eleitos enquanto todos os outros fazem sua própria escolha de serem condenados. Um calvinista de seis pontos, porém, acredita que Deus escolhe alguns para a salvação e outros para a perdição e que ele não faz isso porque algumas pessoas são melhores ou piores do que outras, mas simplesmente por meio da Sua escolha soberana.

"Embora a maioria dos calvinistas atenha-se aos cinco pontos do calvinismo como sumarizadas no acrônimo TULIP, há quem se refira a si mesmo como calvinista de seis ou sete pontos."

O sétimo ponto do calvinismo, pelo menos segundo John Piper (e eu não estou certo se outros consideram-no sétimo ponto), é o melhor-de-todos-os-mundos-possíveis, que "significa que Deus regula o curso da história de forma que, no longo prazo, a Sua glória seja mais plenamente revelada e o Seu povo mais plenamente satisfeito do que teria ocorrido em qualquer outro mundo." Entretanto, mesmo alguém que está disposto a ampliar o calvinismo para além dos cinco pontos não é "hiper." Um calvinista de sete-pontos não é uma hiper-calvinista.

Um calvinista empolgado, ou uma pessoa que realmente gosta muito de falar sobre essas doutrinas, também não é um hiper-calvinista. Alguém que é um fervoroso calvinista, que acredita nessas doutrinas e que não fala de nada mais além delas ainda não é um “hiper” segundo o uso histórico da palavra.

O que é, então, um hiper-calvinista?

Parte da confusão sobre este termo surge, sem dúvida, da utilização do prefixo "hiper." "Hiper" não se refere, como muitos podem pensar, a entusiasmo ou excitação. Seu significado básico aponta para "excessivo ou excessivamente." Pode-se pensar na palavra hiperativo que significa "excessivamente ativo." Hiper vem do prefixo grego huper-, que procede da preposição huper, que significa "mais, além de." Portanto, um hiper-calvinista é alguém que vai além e ultrapassa os limites do que o calvinismo ensina (e ultrapassa os limites daquilo que a Bíblia ensina). Ele é excessivo em sua aplicação das doutrinas. Isso se manifesta em uma ênfase desmedida em um aspecto do caráter de Deus em detrimento de outro. Hiper-calvinistas enfatizam a soberania de Deus, mas “desenfatizam” o amor de Deus. Eles tendem a pôr a soberania de Deus em desacordo com a clara chamada bíblica à responsabilidade humana. Podemos ver como estas coisas são elaboradas quando olhamos para uma definição concisa do termo. Phil Johnson, que fez um estudo aprofundado sobre este assunto, define os hiper-calvinistas utilizando uma definição em cinco partes. Um hiper-calvinista é alguém que:

  1. Nega que o chamado do Evangelho se aplica a todos os que ouvem, OU
  2. Nega que a fé é o dever de todo pecador, OU
  3. Nega que o evangelho faça qualquer "oferta" de Cristo, de salvação, ou de misericórdia para o não-eleito (ou nega que a oferta de misericórdia divina é gratuita e universal), OU
  4. Nega que exista tal coisa como a "graça comum”, OU
  5. Nega que Deus tem algum tipo de amor pelo não-eleito.

Como Phil diz: "Todas as cinco variedades de hiper-calvinismo minam o evangelismo ou distorcem a mensagem evangélica." Portanto esta é a chave para compreender o hiper-calvinismo: ele mina o evangelismo e/ou deturpa a mensagem evangélica de alguma forma.

"A fé é um dever de todos os homens. A graça comum de Deus estende-se a todos os homens e embora Deus não ame o eleito e o não-eleito da mesma forma, a Bíblia é clara em dizer que ele ama tudo o que criou."

Provavelmente a característica mais distintiva de um hiper-calvinista é uma absoluta falta de vontade de evangelizar, ou evangelizar sem estender um convite a aceitar e crer no Evangelho. Um exemplo de uma confissão hiper-Calvinista esclarece esse ponto. O artigo 33 dos Articles of Faith of the Gospel Standard Aid and Poor Relief Societies diz: "Por conseguinte, que ministros hoje em dia abordem as pessoas não-convertidas, ou a todos indiscriminadamente numa congregação mista, apelando a eles a que se arrependam, creiam e recebam a Cristo salvificamente, ou realizem qualquer outro ato dependente da renovada capacidade criativa do Espírito Santo, é, por um lado, admitir poder na criatura, e por outro, negar a doutrina da redenção especial." Em outras palavras, eles afirmam que conclamar as pessoas a se converterem dos seus pecados e se arrependerem é exortá-las a fazer algo que elas não são capazes de fazer porque isso negaria a doutrina da redenção particular. Entretanto este ensinamento está claramente em desacordo com o chamado bíblico para que todos os homens creiam. A oferta do Evangelho é universal e Deus verdadeiramente ordena a todos os homens que atentem para ela. A fé é um dever de todos os homens. A graça comum de Deus estende-se a todos os homens e embora Deus não ame o eleito e o não-eleito da mesma forma, a Bíblia é clara em dizer que ele ama tudo o que criou.

Mantenha aquela definição em cinco partes em mente e terás uma boa ideia do que realmente significa ser um hiper-calvinista. É claro que tenho pouca confiança de que artigos como este venham a fazer alguma diferença. O termo hiper-calvinista é bastante conveniente e “carregado” para ser lançado em um debate ou discussão. Mas pelo menos agora nós sabemos se nos encaixamos ou não nesse molde!


Fonte: Extraído do blog do Challies.com


Tradução: Juliano Heyse


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